Écume

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Descrição

Ao percorrer este livro, ainda em preparação, fui seduzido por uma miríade de imagens que me libertou do critério que escolhe uma imagem em detrimento de uma outra. Isto aconteceu porque a sequência aparentemente aleatória que constrói a narrativa do livro se aproxima de um arquivo que pode ser percorrido desconhecendo a ordem que o estrutura e organiza, e por essa razão matricial o arquivo concede essa correspondência com a memória quando é utilizado como uma ferramenta, produzindo relações diversas que permitem entendê-lo como uma extensão do pensamento. Mas por outro lado, a organicidade destas imagens, presente de forma mais direta na textura da carne ou da pele, mesmo quando um adereço ou uma peça de roupa constrói o corpo ou apenas uma parte, cruzam-se com outras imagens que representam paisagens, a natureza que nos transporta para geografias menos acessíveis, ou a alvura da espuma do mar que se aproxima de nós, tão perto quanto a neve, que na sua imobilidade contém em si mesma um estado em latente transformação que os elementos regem sob o olhar atento e fotográfico de Isidora Gajic.
Esta referência à plasticidade da espuma (Écume, que dá o título a este livro) é uma qualidade que também encontramos na neve, uma qualidade muito expressiva, bela e forte, deixando o sublime numa linha de horizonte distante, contudo presente enquanto imagem fotográfica ambígua, porque é simultaneamente diáfana e transitória, mas perene enquanto testemunho de vivências do percurso da artista. Do meu ponto de vista, a presença da paisagem e das suas transformações, a espuma ou o fogo, são elementos que constroem uma alegoria da energia que nos rodeia, do mundo como ideia pensável mas irrepresentável na sua totalidade. E neste sentido, o trabalho que este livro concentra é num mesmo tempo o percurso, sem referentes e por isso mesmo quase abstrato, e a sua presença enquanto reconhecimento do que ultrapassa essa abstração. E esta é uma das armadilhas com que esta obra nos desafia, porque, por exemplo nas figuras humanas que vemos representadas, tão diversas na sua identidade como nos lugares onde se inscrevem, tanto quanto as paisagens reconhecíveis ou inomináveis, a imagem não encerra uma narrativa episódica, ao invés revela tudo o que não sendo dado a ver é inscrição e convocação da alteridade, do outro, nos elementos que compõem cada página, e que em cada página religam todas as outras.
Este livro persegue uma lógica de montagem e insert, propondo-nos uma leitura que, tal como o exemplo do arquivo, não obedece a uma sequência linear ao ser folheado. É antes de mais, um primeiro tomo de um atlas mais abrangente que o trabalho da artista desenvolve e que não se revela como autorreferencial, no sentido em que não é um diário. Mas pode assumir um caráter cinematográfico, não como uma repérage, porque não é um trabalho preparatório para um filme, mas cinematográfico no sentido em que em cada imagem transitamos numa temporalidade múltipla, entre o momento do encontro com a imagem e todo o correlato de significados e símbolos que esta atualiza em nós. Neste âmbito, recordo aqui uma passagem de Gilles Deleuze, na sua obra “A imagem tempo”, em que se refere ao romance na figura de Marcel Proust: “o tempo não nos é interior, mas nós interiores ao tempo que se desdobra, que se perde a si próprio e se reencontra em si mesmo, que faz passar o presente e conservar o passado.”
Podemos, assim, pensar como a memória, e deste modo essa nossa relação com o tempo, desenha o imaginário que Isidora Gajic partilha com o leitor, o qual ganha uma relevância visual, densa e quase carnal no sentido em que as texturas, a luz e as sombras reordenam a nossa perceção simultaneamente sobre o objecto fotográfico, e sobre o(s) modelo(s), de que nada sabemos. Mas em todas estas perspetivas, ou aproximações, reside uma capacidade de deslocalizar referentes que nos propõem um ato criador que não se deixa ficar refém do instante que a câmara captou, e do seu reenquadramento para construir este livro. Gostaria de sublinhar um conjunto de imagens que se referem com maior proximidade ao universo da casa, a cama desfeita, o corpo que aí se detém. Ou ainda uma dupla página manuscrita que transcreve uma passagem de Marcel Proust, elementos emocionais e literários que se aproximam do olhar e da posição dos corpos que se desdobram por entre fragmentos de azulejos, por cabelos desgrenhados como se de uma espécie de flora marinha se tratasse. Écume ultrapassa o resultado da escolha intuitiva feita a partir do arquivo da autora. Será sobretudo o seu olhar sobre o mundo, sem dúvida, mas é antes de mais uma geografia do seu vocabulário que nos impele a construirmos um itinerário impregnado de humanidade, de emoções e de matizes sensoriais que, tal como a espuma ou a neve, regressam sempre sob formas e frases que se transmutam continuamente e transformam o nosso olhar em cada página impressa, como se de uma compilação de aforismos se tratasse. Uma última imagem que retenho, em página dupla, mostra-nos uma mão a apanhar qualquer coisa num charco de água insalubre que se espalha no asfalto, um pão, uma folha e todo o resto que fora do campo da imagem não nos fala sobre o lugar ou a geografia, mas essencialmente sobre os outros, anónimos, mas não abstratos. Passemos à sua leitura.

João Silvério
Curador

Additional Information

Weight 1.5 kg
Dimensions 36 x 27 x 2 cm

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