Linha Vermelha

Linha Vermelha, de Inês Bonduki
“Entre 2013 e 2015, estive dedicada a ir e voltar incontáveis vezes na Linha Vermelha do Metrô de São Paulo em seus horários de pico, para vivenciar e tentar fotografar a intensidade corporal e emocional dessa experiência cotidiana de 3 milhões de paulistanos.
Ao mesmo tempo, registrei as também intensas jams de dança em São Paulo (Contato Improvisação), em que a interação corporal se dá de forma expansiva e a partir da escuta sensível do outro.
Ao associar essas duas realidades na edição do livro ‘Linha Vermelha’, percebi que elas se aproximavam e se misturavam, tornando-se quase a mesma. Realidades opostas e complementares que viabilizaram a construção de um discurso visual que não se dá em uma ou outra, mas entre as duas.”

Linha Vermelha articula dois ensaios fotográficos de realidades à princípio distantes: o interior de vagões do metrô de São Paulo (2013-15) e jams sessions de dança (Contato Improvisação, SP, 2014), de forma a ressaltar um aspecto que os relaciona: a proximidade dos corpos e uma intensa experiência de toque.
O título refere-se à mais longa linha de metrô de São Paulo, que transporta 3 milhões de pessoas todos os dias da periferia para as regiões mais centrais da cidade. Essas pessoas perdem de 2 a 3 horas diárias no deslocamento casa-trabalho-casa. A maioria das imagens foi produzida com um celular nas horas de lotação mais críticas dessa linha. Além de explicitar questões político-sociais, em Linha Vermelha a intenção é de observar a natureza corporal e sensível da experiência urbana. Nesse sentido, as imagens de dança Contato Improvisação articulam-se com as imagens do metrô explicitando naturezas opostas de corporeidade.

O Contato Improvisação, uma dança criada na década de 70 nos Estados Unidos e difundida pelo Brasil a partir da década de 90, opõe-se à idéia de coreografia e fundamenta-se na construção de um movimento de improviso entre duas ou mais pessoas, pautado na consciência corporal e na escuta do outro. O diálogo da dança se estabelece através de técnicas de troca de peso mas também princípios de jogo.
Em ambas as situações vemos imagens de corpos que se tocam: no vagão do metrô, o toque involuntário dos corpos revela tensão no espaço entre eles, já que o desejo é de afastamento; entre os dançarinos de Contato Improvisação, um espaço macio, com intenção de aproximação, diálogo e aprendizado sensível.

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